O judeu Jacob do Bandolim

Por Nelson Menda

JACOB

O mundo parecia querer vir abaixo naquela cinzenta madrugada de domingo. Nuvens escuras avisavam que a tempestade estava próxima. Como um prenúncio aziago, o telefone tocou uma, duas, três vêzes.  “É para você, Jacob”, informou Adylia, sua esposa , passando-lhe o fone. O dono da casa atendeu, sonolento e, enquanto escutava, seus olhos foram se enchendo  de lágrimas. Era da Santa Casa de Misericórdia.  Mais precisamente, do  Serviço Funerário.  Sua mãe acabara de falecer.  Jacob vestiu um terno às pressas, sentou na beirada da cama, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, procurando, avidamente, por uma tesoura.  Com uma das mãos, segurou com força a aba do paletó e, com a outra, tesoura em punho, recortou uma tira do tecido, sob o olhar estupefato de sua filha Elena, que acordara com o ruído do telefone e o choro do pai, a quem idolatrava (*). “Papai, o que está acontecendo”? “Vista-se  rápido, minha filha, preciso que você. me acompanhe  até à Santa Casa”, respondeu Jacob.

Grajaú-Jacarepaguá

A família Bittencourt morava há 20 anos no número 62 da rua Comandante Rubens Silva, em Jacarepaguá, à época um bucólico e isolado bairro do Rio de Janeiro, quase na zona rural. A Santa Casa, ao contrário, estava situada na parte mais antiga do Centro da Cidade, bem distante dali.  O longo trajeto, percorrido no fusca  dirigido por Jacob, parecia não ter fim. As imagens iam se sucedendo em  sua memória.  Se contasse, ninguém acreditaria.  Ainda na véspera, em mais um dos tradicionais saraus que costumava organizar em sua casa, reunindo a  fina flor do choro carioca, Jacob havia dedilhado nas cordas de seu famoso bandolim os sons de Noites Cariocas, a mais famosa  de suas composições, enquanto um embevecido Serguei Dorenski, o mundialmente consagrado  pianista  russo, se emocionava com os delicados acordes que o músico patrício conseguia extrair do  instrumento (**). Jacob era um intérprete sério e compenetrado e impunha uma disciplina rígida aos  demais componentes de  seu  conjunto, o “Época de Ouro”.  Abstêmio convicto, constituía-se, provavelmente, em uma das poucas e honrosas  exceções  entre a boemia musical carioca, bastante chegada ao copo.  Seus únicos vícios eram o choro e o cigarro.  O primeiro imortalizou-o, ao passo que o segundo matou-o, em um fatídico treze de agosto de 1969, aos 51 anos, com um fulminante enfarte do miocárdio.  Mas isso ainda não havia acontecido  naquela  cinzenta manhã de 28 de fevereiro de 1965  em que o velho fusquinha percorria, resfolegante, as íngremes ladeiras da Grajaú-Jacarepaguá.

O Dilúvio

Chegando à Santa Casa,  Jacob assinou rapidamente os papéis e determinou o local do sepultamento de sua mãe, Sara Rachel Pick, natural de Lodz, na Polônia.  Como judia, a mãe de Jacob deveria ser enterrada no Cemitério Israelita. Cumpridas as formalidades legais, o estranho cortejo, formado apenas pelo velho carro fúnebre, onde seguia o caixão, e pelo fusquinha dirigido por Jacob, tomou o rumo da Avenida Brasil em direção ao Caju, seguramente um dos bairros menos atraentes  da Cidade Maravilhosa, onde estavam localizados, lado a lado, cemitérios, antigos  hospitais, quartéis e docas  marítimas.  A meio caminho, o anunciado temporal desabou, com inusitada fúria. O limpador de pára-brisas do  carro não conseguia dar conta da torrente de água que caía, turvando a visão do motorista já  embaçada pelas  lágrimas que continuavam a verter de seus olhos e  transformando o  dolorido trajeto em uma arriscada aventura.  Em poucos minutos,  os bueiros já não  davam mais vazão à  chuva, que não diminuía, ameaçando  arrastar o pequeno veículo para o leito do rio em que a avenida se transformara. Jacob foi  reduzindo a marcha,  distanciando-se do carro funerário, mais alto, cujo condutor já estava acostumado a enfrentar o alagadiço caminho.  Com a vista marejada e o coração em frangalhos, contemplou o distanciamento, dessa vez definitivo, do corpo de sua mãe. Corpo que havia dado luz a um gênio. Mas que, para vergonha da sociedade e da coletividade judaica a que um dia pertencera, havia sido maculado por mãos e corpos impuros.

Uma Polaca

A mãe de Jacob, a Senhora Sara Rachel Pick, havia exercido a mais antiga e vergonhosa das profissões.  Prostituta,  meretriz, mulher da vida,  dona de bordel. Mas não era uma mulher vulgar.  Dona Rachel era uma pessoa  religiosa, que respeitava o Shabat e os dias sagrados de Rosh-Hshaná, o Ano Novo, e o Iom-Kipur,  Dia do Perdão, quando jejuava e pedia a Deus que a absolvesse pelos  pecados cometidos.  Rachel  Pick, como a maioria de suas “irmãs”, fazia parte da Associação Beneficente  Funerária e Religiosa Israelita, ABFRJ, fundada no dia 10 de outubro de 1906,  inicialmente em prédio da rua Luiz de Camões 68, no Centro do Rio, e que funcionou até 1968, por  exatos 62 anos, em diferentes endereços, mas sempre próximo à  zona boêmia da Cidade Maravilhosa, onde residiam e exerciam seu milenar ofício suas numerosas associadas. Fundada e dirigida por prostitutas, a entidade chegou a  possuir, além de   sede própria, onde funcionava uma bem estruturada sinagoga,  um cemitério exclusivo no subúrbio de  Inhaúma, uma casa de repouso para idosos e um eficiente programa social destinado a prover recursos às associadas doentes ou  aposentadas. Rachel Pick fazia cálculos de cabeça, mas não sabia ler nem escrever. Apesar disso, ocupou a importante função de 1ª Secretária da Associação, cargo para o qual foi eleita na chapa escolhida para dirigir a entidade em 1932.

O Orgulho

Jacob viveu toda sua vida sob o  estigma, forte à época, de ser judeu e, ainda por cima, filho de uma profissional do sexo. Mas nunca procurou ocultar seu sobrenome materno, do qual sempre se orgulhou.  Pronunciava-o, alto e bom som, enfatizando, letra a letra, a grafia correta do nome de família  judaico-polonês. “Por favor, não confunda, é PICK, com P. I. C. K.“Quem relata esse fato é o escritor e estudioso de música popular brasileira Sérgio Cabral, amigo fraterno e admirador confesso de Jacob Pick Bittencourt, o nosso consagrado Jacob do Bandolim, que ao lado de  Ernesto Nazareth e Pixinguinha  é  considerado um dos pilares da música popular brasileira. Filho de mãe israelita polonesa e pai católico brasileiro, podemos considerar Jacob do Bandolim  judeu? O público que tire suas próprias conclusões.

A Pensão

Jacob nasceu em 14 de fevereiro de 1918 e morou, até casar,  na “pensão” administrada por  sua mãe, na Rua Joaquim Silva 97, Lapa, zona do baixo meretrício carioca, em uma construção sólida que, resistindo à ação do tempo, ainda ostenta, até hoje, seus belos traços arquitetônicos.  Baixo meretrício por que, na época áurea  da  prostituição no antigo Distrito Federal, ao tempo em que a cidade sediava a Presidência da República, o Senado, a Câmara de Deputados e representações diplomáticas das mais prestigiadas nações,  o Rio de Janeiro fervilhava e as francesas  jogavam na primeira divisão, deixando para as polacas o atendimento à clientela mais humilde.  A mãe de Jacob se esforçou ao máximo para preservá-lo das possíveis más influências do meio em que vivia. Em casa, mantinha o pequeno Jacozinho trancafiado no quarto a maior parte do tempo. Preocupada com o futuro do filho único,  matriculou-o nas melhores escolas,  procurando cercá-lo de cuidados e atenções, como uma boa e dedicada iídishe mame.

A  Janela e o Cego

A ligação do menino com a música foi despertada desde cedo, por uma dessas felizes coincidências da vida.  Obrigado a permanecer, horas a fio, no interior do quarto,  o garoto tinha na janela  que dava para a rua  uma de suas poucas distrações.  Justo na  calçada em frente à sua casa fazia ponto  um senhor  francês, cego, que ganhava a vida  tocando um velho e surrado violino. Jacozinho gostava de escutar, fascinado, os belos sons que o bem manejado arco do ceguinho conseguia extrair das quatro cordas do instrumento.  Pediu à mãe um violino. Já estava com 12 anos e, em breve,  completaria a maioridade judaica. Dona Sara, que não sabia dizer não ao filho,  juntou suas parcas economias e comprou-lhe o almejado  presente.  Por total desconhecimento ou falta de recursos, esqueceu, porém, de contratar um professor  para ensinar ao filho os segredos e as manhas do novo brinquedo.  Jacob achou mais fácil dedilhar as cordas do violino como se fosse um violão, desprezando o arco, muito complicado de usar  por  um menino da sua idade.

Grampo de Cabelo

No lugar da palheta utilizava um grampo de cabelo que surrupiara da penteadeira da mãe.  E não é que o moleque, de improviso e por conta própria, começou a tocar  como gente grande, encantando os fregueses da casa?  Até que um dia, uma das melhores amigas de Dona Rachel, a também polonesa Sofia, desabafou: “esse garoto tem talento, mas não para o violino, Rachel. Vou oferecer-lhe um outro tipo de instrumento”.  Dito e feito. As duas senhoras, elegantemente trajadas, foram até à Rua da Carioca, não muito longe dali, onde até hoje funciona a tradicional “Guitarra de Prata” (*|*), loja especializada na venda de partituras e  instrumentos musicais.  Nesse estabelecimento Sofia adquiriu um bandolim para o afilhado.

Bandolim do Jacob

Optaram pelo bandolim de cuia,  que fazia sucesso à época, quando a música brasileira ainda era bastante influenciada pela européia.  Foi sopa no mel. Mesmo sem professor e com total desconhecimento do que fosse uma pauta, o nosso Jacob Pick  começou a percorrer, a partir dali, uma das mais belas trajetórias  musicais do país, que culminou com a substituição do sobrenome polonês por um outro,  mais adequado ao novo ofício.  Desaparecia  o Jacob Pick, que mais adiante agregaria o  Bittencourt, do pai, para dar vida ao imortal Jacob do Bandolim.  Sua vida não foi um mar de rosas.  Estigmatizado pela origem, precisou superar o duplo preconceito  para ser admitido na melhor sociedade carioca.

A Lei 

A prostituição, como quase tudo no Brasil daquela época, era, ao mesmo tempo, proibida e tolerada.  De vez em quando, a Chefatura de Polícia do Distrito Federal realizava batidas, com grande estardalhaço da imprensa, interditando algumas casas, prendendo  uma ou outra profissional e chamando  para depor seus caftens. Milagrosamente, pouco depois, eram todos liberados e voltava a ser  “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.  Era o famoso jeitinho, negociado entre as autoridades e os “protetores” das moças,  que no caso das polacas também eram, muitas vezes, judeus. Para uma certa modalidade de crime, todavia, não havia jeitinho ou negociação que resolvesse.  No final de 1935, em plena ditadura getuliana,  o Chefe de Polícia, o temido Filinto Müller, esquadrinhava a cidade, casa por casa, atrás de Luiz Carlos Prestes e de sua mulher,  a judia Olga Benário que, junto com o grupo de dirigentes do Partido Comunista, procurava  refúgio após a fracassada  tentativa de derrubada do governo. As batidas da polícia aterrorizavam os moradores da cidade e é fácil entender o pavor que tomou conta da zona do meretrício.  Além das investidas habituais, que espantavam a freguesia, as moças passaram a temer também as da Polícia Especial, de reconhecida truculência, cujos componentes utilizavam quepes vermelhos, sendo, por essa razão,  apelidados de “cabeças de tomate”.  Foi nesse clima de pavor,  tarde da  noite, quando os clientes já haviam se  retirado, que o sossego da “pensão” de Dona Rachel  foi interrompido por desesperadas batidas em sua porta. Quem poderia ser àquela hora ?

A Visita 

A dona da casa  vestiu rapidamente um chambre e dirigiu-se à porta de entrada,  perguntando,  em seu português arrevezado e com forte sotaque polaco, quem era. Uma voz suplicante respondeu,  do lado de fora : “sou eu, seu sobrinho, abra pelo amor de Deus”. Apavorada, Rachel entrabriu, temerosa, a porta,  deixando  entrar uma figura furtiva e assustada. Sara Rachel há muito tempo não recebia notícias da família, que havia permanecido na Polônia.  A Europa, naquele fatídico 1935, estava sendo sacudida por violentas convulsões políticas e sociais que desaguariam, pouco depois, na Segunda Grande Guerra. Para muitos idealistas a solução para a crise  seria a implantação de um regime sem classes, onde patrões e  empregados desaparecessem para dar origem a uma nova ordem social.  O sobrinho de Sara Rachel Pick era um desses  jovens que acreditara na revolução proletária de  Luiz Carlos Prestes.  Rachel estremeceu.  Era só o que faltava em sua vida. Assustada, alimentou o sobrinho, filho de seu único irmão que residia no Brasil.  Permitiu que ele repousasse por algumas horas em sua casa, tomasse um banho, vestisse roupas limpas e, após ter emprestado algum dinheiro, pediu, desesperadamente, que ele fosse embora.  Os próprios caftens, se soubessem da inusitada visita, teriam denunciado o fugitivo, para mostrar serviço e fazer média com a polícia. Rachel e Jacob nunca mais avistaram o misterioso parente. Souberam, algum tempo depois, que ele tinha  sido preso e que, para extrair os nomes de seus companheiros, tivera as unhas dos dedos das mãos arrancadas, uma a uma, por alicate.  As publicações que relatam as atrocidades cometidas pela polícia política da época referem-se a esse tipo de tortura como uma rotina praticada contra os suspeitos de pertencer ao Partido Comunista e, apesar de exaustiva busca, não foi possível saber o nome desse primo-irmão de Jacob, nem mesmo se teria sobrevivido à prisão.  Transcorridos 66 anos,  ao relatar essa passagem da história de sua família, Elena Bittencourt, filha de Jacob, mesmo sem a ter vivenciado, a fez de forma cautelosa e apreensiva, como que reproduzindo o clima de terror vivido por Jacob e sua mãe naquele fatídico período.

 Paixão

Com apenas 22  anos,  nosso Jacob apaixonou-se perdidamente pela jovem  Adylia Freitas,  de tradicional família católica e residente na sofisticada Copacabana. Para dar uma ideia do abismo que separava os Pick dos  Freitas, basta citar o fato de que, religiosamente, uma vez por semana, a mãe de sua namorada fazia questão de receber as amigas em sua ampla casa da rua Miguel Lemos, contratando, para essas ocasiões, os serviços de salgadinhos e petit-fours da afamada Confeitaria Colombo.  Apesar dessas diferenças, os futuros sogros de Jacob não criaram maiores empecilhos ao matrimônio, fazendo apenas uma pequena exigência.  Para conceder a mão da filha, bastaria que Jacob, além de se converter catolicismo, parasse de tocar…bandolim!  A notícia do casamento caiu como uma bomba no seio da estigmatizada coletividade judaica formada pelas moças de vida fácil da Lapa e seus protetores. Constituíam um grupo discriminado tanto pela grande sociedade,  que abominava a prostituição em público mas utilizava seus serviços no privado,  como também pelas incipientes instituições judaicas da época que, além de combater  a vergonhosa prática,  sentiam-se incomodadas em compartilhar a mesma fé com moças de hábitos tão reprováveis.

Crime

Além disso, a cerimônia nupcial deveria ser realizada  na tradicional Igreja  Nossa Senhora da Paz, em Ipanema,  um dos locais prediletos para a celebração de casamentos da fina flor carioca. Como poderia um judeu casar em uma igreja católica sem antes passar pelo processo de conversão?   A família da noiva bateu pé.  Podia até fazer vista grossa  para a profissão e as estranhas amizades da mãe do noivo, mas sem conversão, nada feito, não haveria casamento. Jacob não teve mesmo jeito.  Precisou fazer curso de catecismo e se submeter, previamente, ao batizado católico na Igreja Imaculada Conceição, em Botafogo,  para poder contrair núpcias com sua adorada Adylia.  Sua mãe, juntamente com as amigas e, especialmente, seus “protetores”, não gostaram nem um pouquinho da ideia.  Um judeu abandonar a fé milenar de seus ancestrais para abraçar uma outra, que os acusava de ter matado Cristo?  Uma religião que havia perseguido seus irmãos por milhares de anos?

Castigo

Jacob nunca foi perdoado por essa “traição” e, dali em diante, tomava muito  cuidado ao entrar em algum bar da Lapa, reduto boêmio frequentado não só  por  artistas e  músicos mas também pelos malandros da época, entre os quais os caftens judeus que exploravam e “protegiam” as operárias do sexo. Pode parecer estranho, hoje em dia, que nesse submundo do crime e da prostituição, prevalecesse um forte sentimento de grupo e de respeito às tradições  religiosas, mas a verdade é que Jacob passou a ser discriminado  por ter casado com uma gói e, pior de tudo, ter se submetido à humilhante condição de “convertido”.  Pela estreita visão de Sara, a ira divina por tamanho sacrilégio logo iria desabar.  Dito e feito.  A esposa de Jacob, sem o saber, era portadora do gene da hemofilia e transmitiu-o para o filho homem do casal, de nome Sérgio.  Para contrabalançar a herança maldita, que obrigou o rapaz a inúmeras internações e transfusões e acabou por ceifar sua vida, precocemente, aos 38 anos, a própria natureza  concedeu-lhe, como prêmio consolação, que herdasse,  dessa vez do pai, o talento para a música.

Naquela Mesa

Quem não lembra do compositor Sérgio Bittencourt, imortalizado nos versos da inesquecível canção Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dela tá doendo em mim,  composta em homenagem ao pai?  Pelo menos nesse aspecto o destino foi um pouco menos cruel com Jacob, poupando-o do sofrimento de testemunhar a morte prematura do próprio filho. Já falamos de Elena, a  filha idolatrada de Jacob,  que atualmente se dedica de corpo e alma à preservação da vida  e da obra de seu talentoso pai e que, gentilmente, prestou grande parte  das informações contidas neste texto. Também mencionamos o  desparecimento de Sérgio, um dos grandes nomes de nossa música popular. Mas o que sabemos sobre o pai de Jacob, o zeloso profissional que dirigiu, com pulso firme, a tradicional e renomada  Farmácia Bittencourt?

O Boticário

O genitor  de Jacob, Dr. Francisco Gomes Bittencourt,  era um conceituado farmacêutico estabelecido na movimentada Rua Uruguaiana, também no Centro do Rio.  Solteirão convicto, manteve  durante bastante  tempo  um relacionamento estável com Sara Rachel Pick.  Após o nascimento do filho, também único por parte de pai,  passou a ajudar na educação do menino. Rachel era uma mulher amargurada, sofrida e de difícil trato. Falava mal do pai para  Jacob, dando a entender que ele não se interessava pelo garoto nem colaborava com o seu sustento.  Já doente e sentindo a morte se aproximar, o farmacêutico decidiu assumir oficialmente a paternidade de Jacob, o que permitiu ao jovem músico acrescentar o sobrenome Bittencourt ao Pick materno. Com a morte do pai, Jacob se transformou em seu único herdeiro e assumiu  a gerência da Farmácia Bittencourt. Ao manusear os livros do estabelecimento, Jacob, a essas alturas formado em contabilidade, descobriu, estarrecido, que o pai, ao contrário do que a mãe havia sempre afirmado,  tinha sido extremamente correto em relação a ele, assumindo – e registrando isso em livro – as despesas necessárias a  propiciar-lhe uma boa educação.  Jacob, que nunca havia censurado o comportamento e estilo de vida da  mãe,  ficou bastante revoltado com a falsa imagem que Rachel  havia construído do pai.

Os Negócios  

A partir daí, teve início um lento e progressivo afastamento de mãe e filho, que perdurou, com raros e traumáticos intervalos,  até o dia do fatídico telefonema. Jacob sempre demonstrou um enorme talento para a música, mas revelou-se  um completo desastre para os negócios. Sob sua direção, a Farmácia Bittencourt, outrora próspera e rentável, entrou no vermelho, foi transferida para o bairro de Higienópolis, no subúrbio do Rio  e  acabou encerrando suas atividades alguns anos depois. De dono de farmácia a representante comercial, vendedor de sabão a domicílio, passando por jurado de programa de calouros e corretor de seguros, Jacob do Bandolim exerceu um sem número de atividades profissionais, tendo se revelado uma autêntica nulidade empresarial. Até que, um belo dia, resolveu  prestar concurso público para Escrevente Juramentado da Justiça do Rio de Janeiro, sendo  aprovado com brilhantismo e exercido a função com rara competência. Dedilhando as teclas da máquina de escrever como se fosse um piano e dono de um português elegante e correto, seus registros sempre primaram pela  fidelidade  e precisão.

Hora  Iídishe

Uma das características arquitetônicas do Rio de Janeiro é a existência de antigas vilas de casas geminadas, influência da forte presença  portuguesa  na cidade. Em uma dessas vilas, no bairro do Engenho Novo, numa  pequena construção de dois pavimentos,  Jacob e Adylia moraram por bastante tempo em uma casa onde seus filhos brincavam  durante o dia e os chorões (***) se reuniam à noite.  Antes de mudar para o distante bairro de Jacarepaguá, a casa de Jacob do Bandolim, no subúrbio do Engenho Novo, servido pelos trens da Central, virou o ponto de encontro da boemia musical carioca. Sérgio e Elena, crianças felizes, eram  amadas pelos pais e paparicadas pelos intelectuais e músicos que frequentavam sua residência, em busca dos incomparáveis acordes que Jacob extraía das cordas mágicas do seu bandolim. O casal de filhos de Jacob nem em sonho  poderia  imaginar  que, no centro da cidade, residia uma senhora, já meio velhota, que dirigia uma assim chamada “casa de tolerância” e que essa referida senhora era nada mais nada menos do que sua avó paterna.  É Elena, mais uma vez, quem  relata: “eu só conheci minha avó Sara Rachel quando tinha seis anos”.  Foi em um domingo que Jacob recebeu a visita da  mãe, de quem estava afastado há bastante tempo. Irriquieta, Rachel aproveitou para conhecer a casa do filho e dar uma volta pelas redondezas, apesar da chuva que começara a cair. Ao passar em frente a uma das casas da vizinhança, seus olhos se arregalaram e o coração bateu mais forte. De uma das portas era possível escutar o programa “A Hora Iídishe“ (****), transmitido por uma emissora de rádio carioca.  Rachel  começou a chorar convulsivamente, do lado de fora, e seus lamentos acabaram atraindo a atenção do dono da  casa, curioso em saber o que estava acontecendo.  Ao abrir a porta, deparou com uma cena chocante.  Ajoelhada no passeio, encharcada pela chuva e aos prantos, uma senhora de meia idade dirigiu-se a ele, também em iídishe, pedindo licença para entrar.  Precisava desabafar com alguém, contar sua vida, suas desventuras. Há muitos anos não escutava a língua materna e aquele reencontro havia despertado um desejo de abrir seu coração. Testemunha desse episódio, a Sra. Sara Kestenberg, na época uma menina de 5 ou 6 anos, lembra que, quando Rachel Pick começou a falar, seu pai pediu-lhe que saísse da sala, pois o assunto “não era apropriado para crianças”.  A única coisa de que se recorda é que Rachel  Pick tinha enorme orgulho do filho Jacob, cujos encontros musicais alegravam toda a vizinhança, que se debruçava nos muros de suas casas para assistir, de camarote e graciosamente, ao maior bandolinista de todos os tempos.                                               

O  Aviso

O trabalho de Escrevente Juramentado no Fórum do Rio foi, na realidade,  a principal fonte de renda de Jacob, que agregava ao seu salário os cachês recebidos nos programas de rádio e TV.  E foi em uma de suas apresentações que o coração começou a  claudicar. Jacob estava amargurado com o que  parecia ser um  futuro sombrio para a música popular brasileira. Não concordava com as novas tendências, como a jovem guarda e o tropicalismo.  Era no samba e no chorinho que repousava nossa maior riqueza musical, mas sofria com a possibilidade de as novas gerações abandonarem, pouco a pouco, os ritmos tradicionais, bandeando-se para os “modernismos”,  por quem  nutria particular ojeriza.

Acordes Finais

Logo após o início do  show no Teatro Casa  Grande, no Leblon, no dia 19 de março de 1967, quando foi agraciado com a Comenda da Ordem da Bossa, e após  uma brilhante apresentação em que foi efusivamente aplaudido por uma platéia onde predominavam jovens, Jacob se emocionou intensamente e sentiu o coração falhar.  Foi o primeiro de uma série de três enfartes. Dois anos depois, no fatídico 13 de agosto de 1969, ao voltar de uma visita ao amigo Pixinguinha, ainda no carro, Jacob sentiu uma forte dor no peito e faleceu, minutos depois, na varanda de sua casa, nos braços de sua filha Elena. Felizmente, as previsões pessimistas de Jacob Pick Bittencourt, o consagrado Jacob do Bandolim, não se realizaram e hoje em dia o choro ou chorinho, como também é conhecido, é um dos ritmos mais apreciados de norte a sul do Brasil, conquistando, pouco a pouco, adeptos também no exterior.

A Imortalidade

Grupos de chorões proliferam em muitas  cidades,  formados, muitas vezes, por jovens instrumentistas que dedilham nos violões, cavaquinhos, bandolins e pandeiros, os acordes  de Doce de Coco e de dezenas de outras inesquecíveis melodias do genial mestre. A discografia de Jacob em vida ostenta a  impressionante marca de 52 discos solo em 78 rotações e  12 long-plays, além de um sem número de performances em gravações com outros artistas.  Preocupado em preservar o melhor da música popular brasileira, além de influenciar uma geração inteira de compositores e intérpretes, organizou um grande acervo, o “Arquivo do Jacob”, com  milhares de discos, fotos, partituras, livros, fitas e outros materiais que comprovam a pujança e o talento de nossos artistas. As reproduções dos discos de Jacob em CD fazem sucesso no mundo todo e esgotam assim que chegam às prateleiras das lojas especializadas.  Tem sido relançados álbuns e escritos  livros sobre  sua  maravilhosa obra musical. Elena Freitas Bittencourt, sua filha, participa com entusiasmo, em tempo integral,  do Instituto Jacob do Bandolim,www.jacobdobandolim.com.br , dedicado a preservar a memória de um dos sustentáculos  da música popular brasileira, que nasceu e cresceu na Lapa, sede da boemia e do bas-fond carioca, filho de uma judia polonesa de quem se pode  acusar de  tudo, menos de ter levado uma vida fácil.

Rio de Janeiro, novembro de 2003

Nelson Menda

nmenda@hotmail.com

BIBLIOGRAFIA:

  • Baile de Máscaras, Beatriz Kushnir;
  • Libreto do Álbum Jacob do Bandolim, João Máximo;
  • Tributo a Jacob do  Bandolim, Maria Vicência Pugliesi e Sergio Prata;
  • Israelitas na Cultura Brasileira, Helio Daniel Cordeiro;
  • Olga, Fernando Morais;
  • Discurso de Sergio Cabral na Homenagem a Jacob do Bandolim na Cobal de Botafogo, Rio;
  •  Entrevistas com Elena Bittencourt.
  • Breves Anotações, Sergio Prata; Depoimento telefônico de Sara Kestenberg. Agradecimento especial ao Dr. Sasson Chemtob, amigo comum e colega de Elena,  qu  estimulou a pesquisa sobre a vida e a obra de um de nossos  maiores compositores e intérpretes.

(*) – Recortar a aba do paletó quando morre um ente querido é uma manifestação de luto  judaica e o gesto, apesar de não ter sido relatado nos depoimentos de Elena Bittencourt, foi inserido no texto para vincular o personagem à  sua origem.

(*|*) -Nota do Editor –  Infelizmente a Guitarra de Prata – A loja de instrumentos mais tradicional do Rio, fechou suas portas em 18/03/2014 após 127 anos de bons serviços.

(**) – O encontro entre o pianista russo Serguei Dorenski e Jacob do Bandolim  aconteceu, mas não obrigatoriamente  na noite da véspera do falecimento da senhora Sara Rachel Pick.

(***) – Maneira carinhosa como são tratados os  músicos que participam dos grupos de choro.

(****) – Iídishe ou judeu-alemão era a língua falada pelos “asquenazim” da Europa Oriental.

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Um comentário em “O judeu Jacob do Bandolim

  • ‍‍27/02/2018 - 12 Adar 5778 em 18:10
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    Muito bonita essa historia.Tenho o livro “Baile de Mascaras”, vou ver se acho foto da mae dele.
    Gostei muito de ler esse texto.

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