Os filhos do ódio

Ouvi na minha casa que minha avó, então Tauba Ackermann e meu avô Salomon Silvain Hazan quando se casaram, lá pelos primeiros 18 anos do século 20, protagonizaram o que a “comunidade judaica” carioca da época apelidou de o primeiro casamento misto entre um judeu e uma judia.
Ele sefaradita turco e ela, ashkenazita, neta de austríacos, já nascida no Rio de Janeiro.
No CIB, dos anos 40 e 50 do século passado, ashquenazitas não podiam ser diretores.
Na Hebraica, um pouco mais à frente, lá pelos idos dos anos 60, alguns de seus fundadores, conhecidos como a turma da MANON, restaurante do centro do Rio onde almoçavam diariamente, olhavam para os sefaraditas com desdém e relutavam em aceitá-los, até como sócios no clube das Laranjeiras.
É bom lembrar que um ou outro, ainda que pudesse ter se casado com uma sefaradita, em sua esmagadora maioria, eram egressos de famílias do leste europeu.
As idiossincrasias, o preconceito e a má vontade com os diferentes estão por toda parte e integram o comportamento dos mais variados grupos de gente pouco esclarecida que compõe o caleidoscópio de confrarias que se organizam com base em dissidências.
Este é isso, aquele é aquilo, lá eu não piso, aqui não vou e segue a banda tocando neste ritmo. Há ainda a piada do náufrago que constrói sozinho na ilha que o recebeu, duas sinagogas. Uma para não entrar.
Como você meu querido leitor, explicaria a existência de judeus brancos, de olhos azuis, oriundos da Europa. São falsos? Misturados com cossacos russos e polacos? As antepassadas judias deles foram estupradas por caucasianos? Houve de verdade a conversão dos Kazáros? Quem atestou seu judaísmo?
Como explicar a negritude dos etíopes hebreus que Israel resgatou aos milhares e hoje se constituem nos melhores soldados do Estado Judeu?
E o milhão e meio de russos que chegaram à Israel? São todos judeus? Você garante?
Quem pode em sã consciência, negar ou afirmar que A é judeu e B não é?
É claro que se trata de uma questão de grana. Muita grana!!! Reserva de mercado, mesmo.
Os donos dos cartórios religiosos que faturam com o assunto sabem bem do que estou tratando.
Se é Fulano, autorizado pelas Bruxas de Salém, que converte, então Pereira é judeu! Se, por outro lado, é Beltrano a realizar a conversão e não tem o carimbo necessário, reconhecido pelos “Abutres do Templo”, então, não é judeu.
Há, por aí, até um que não aceitava a ideia dos filhos gêmeos de Pelé serem judeus mas quando se trata de Edir Macedo, se arreganha como uma cachorrinha no cio! Uma verdadeira graça!!!
No Rio de Janeiro, nenhum rabino tem licença para converter ou para permitir o retorno dos descendentes dos judeus ibéricos ao judaísmo.
Assim, a pergunta que está sem resposta é a seguinte:
O que fazer com uma enorme massa de pessoas que está de volta ao judaísmo depois de séculos nos quais suas famílias ficaram no escuro, obrigadas a adorar um bezerro de ouro, quando seus descendentes, aqui e agora, querem poder adorar a Torá, querem ser recebidos entre nós e respeitados como iguais?
Como tratar os Pereiras, Pintos, Carvalhos, Sobreiras, Monteiros, Oliveiras, Andrades de hoje que querem ser judeus, como de fato e de direito o são?
Suas famílias chegaram ao Brasil e aqui continuaram a viver como cristãs e sem que soubessem o porquê, conservavam certos hábitos como acender velas em casa às sextas-feiras, não trabalhar aos sábados e não deixar gente necessitada sem abrigo e alimentos.
Devemos ou não abrir nossas portas, como faz o Estado Judeu, para os retornados?
A esmagadora maioria dessas pessoas continua na mesma de seus antepassados. Sem saber de seu judaísmo. Há quem diga que são mais de 30 milhões no Brasil.
Por outro lado, há os que acordaram e voltaram ao judaísmo.
Há os que se converteram pelo meio possível e há os que foram circuncidados ou obedeceram ao Dan Brit.
Há também aqueles que já há muito vivem entre nós judeus.
Para mim, esses irmãos chamados de “Bnei Anussim” que são os Filhos dos Forçados, são tão judeus quanto eu.
Israel recebe judeus dos cinco continentes. Recebe judeus etíopes e russos,chineses, australianos e americanos.
Em minha casa e em meus domínios, faço do exemplo israelense e da prática brasileira de hospitalidade, minha profissão de fé.
Quero ouvir a sua opinião sobre este assunto.
Como você meu leitor, encara esta coisa?
Como devemos tratar os seres humanos cujas famílias judias, nos últimos 500 anos ou foram expulsas da Península Ibérica ou foram obrigadas a se converter a Jesus?
Como tratar os filhos atuais destas famílias que se sentem judeus? Talvez muito mais judeus do que alguns que apenas se aproveitam desta pobre comunidade judaica carioca.
É bom que vocês saibam, meu leitor e minha leitora queridos, que eles estão aí, na nossa porta, batendo com a força dos acelerados batimentos de seus corações e pedindo:
NOS ACEITEM, PORQUE NÓS TAMBÉM SOMOS JUDEUS!!!
Devemos voltar ao tempo das lutas fratricidas entre nós?
Devemos aceitar nossos irmãos?
Por favor, compartilhem esta mensagem mas, antes, me respondam o que vocês pensam disso tudo!
Muito obrigado, antecipadamente, pelas respostas que aguardo, ansioso!!!
Ronaldo Gomlevsky
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Author: Ronaldo Gomlevsky

Ronaldo Gomlevsky é jornalista, advogado e empresário.

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