Quem controlará os que controlam? – Parashat Korach

Recebi do meu amigo André Ranulfo o desafio de escrever um texto sobre a Parashá desta semana. Como sou pouco versado em Torá e menos ainda na Tradição Oral, era um grande desafio. Para pessoas já versadas em Torá talvez seja algo simples, mas não para mim. Além disso, por ser quase um “iletrado” em Torá, tendo a ler suas páginas com olhos de pessoas comuns, buscando uma aplicação muito prática no cotidiano. Procuro enxergar a Torá até nas páginas do jornal.

O desafio estava lançado. E desafios exigem preparação. Passei a ler tudo que havia sobre a porção semanal em questão. Atirei no que vi e acabei acertando o que não havia visto. E quero compartilhar com os amigos uma visão um pouco diferente sobre esse texto tão intrigante e que ao mesmo tempo possui uma grave advertência para todos nós dos dias atuais.

A parashá desta semana é Kôrach (Bamidbar/Números) 16-18. Trata, dentre outros assuntos, da primeira rebelião contra a autoridade de Moshé Rabenu. É relatado que Kôrach (פָּרָשָׁה , Côrach, Corá, Coré. etc.) e 250 seguidores iniciam o questionamento da autoridade de Moshé com um argumento aparentemente justo e interessante. Por que Moshé (Moisés) e Aharon (Arão) se colocavam acima de todos, se o Eterno encontra-se no meio de todo o povo? Quem são esses dois que se colocam acima do povo? Quem controlará os que controlam? Quem nos protegerá de uma eventual tirania dos que tem o dever funcional de nos proteger e nos dirigir? Não é fácil responder essa pergunta. É muito fácil simpatizar-se com essa causa. Com ele, estavam 250 outros sábios e representantes de todo povo. Se aqueles expoentes estavam com Kôrach, por que não aderir?

Havia, porém, um outro sério problema. As reais intenções de Kôrach não eram a correção de uma possível distorção que havia identificado naquele sistema social. O seu descontentamento devia-se apenas ao fato de que ambicionava a posição de Moshé. Kôrach desejava o poder absoluto. Qualquer semelhança com a nossa política atual não é mera coincidência, pois não existem coincidências na Torá.

Prosseguindo na leitura, o Eterno dá solução drástica ao conflito. Fez abrir uma enorme cratera aos pés dos insurgentes, levando-os para as profundezas ainda vivos. Mas por que tamanho castigo para um homem que apenas questionou uma estrutura de poder? Não nos é ensinado que a antítese e o diálogo são positivos para o aperfeiçoamento?

Kôrach tinha sede de poder e faria de tudo para mantê-lo. Moshé, por sua vez, era um homem extremamente simples e, na verdade, nem desejava estar ali. Recebeu a liderança apenas porque o Eterno lhe ordenara. E é exatamente nesse ponto onde se faz a diferença: a intenção.

Caso Kôrach lograsse êxito, faria de tudo para concentrar o poder apenas para mantê-lo. Tornaria nosso povo, já nos seus primeiros passos, vítimas da ditadura e da opressão. O Eterno, porém, nos retirara da escravidão com outra intenção. Ele desejou e ainda deseja que sejamos livres, ainda que nas dificuldades do deserto.

Duas vezes por dia, ao recitarmos o Shemá, declaramos: “Eu sou Ad’nai, vosso D’us, que vos tirou do Egito para ser vosso D’us.” Isso significa que o Eterno odeia a escravidão pois é a forma mais vil de idolatria – curvar-se a outro homem. Ele nos quer livres para que usemos essa mesma liberdade para retornar a Ele de forma consciente e voluntária. O Eterno nos quer livre para sermos co-partícipes – não Seus escravos – na construção de Sua morada aqui na Terra.

Todo judeu – ou qualquer homem de alma livre – tem o dever de suspeitar da concentração de poderes sob quaisquer pretextos. Concentração de poder é o prelúdio da tirania, da mesma forma que essa precede os crimes mais bárbaros contra a humanidade. A forma com que o Eterno puniu os insurgentes demonstra de forma clara o que Ele pensa sobre a dominação do homem em busca do poder absoluto.

Em total oposição às ideias de Kôrach, imediatamente nos vem à cabeça Yitró (Jetro). Naquela parashá, Yitró é recebido por Moshé e o seu primeiro ato é censurar nosso líder por administração temerária. Yitró fez uma clara crítica à concentração excessiva de poderes. Ao aceitar os conselhos do sogro e executá-la, o Eterno permitiu que nosso povo recebesse a Torá.

A aprovação da descentralização de poderes em todas as esferas e a rejeição mais que veemente à concentração de poderes foram demonstradas de forma inequívoca por D’us. Também fica um precioso ensinamento sobre como nos relacionar com as lideranças. Uma censura franca, equilibrada e desinteressada sempre terá muito valor para um líder verdadeiro e bem intencionado. Por outro lado, desafios a um líder legítimo podem gerar desastres.

Nos dias atuais, assistimos um debate político sobre qual o alcance e o tamanho do Estado, bem como o seu controle sobre o cidadão comum. Em torno disso e totalmente alheia aos interesses do cidadão, desenvolve-se uma batalha que mais se assemelha à escatologia que à política. Hoje, discordar de um pensamento hegemônico equivale a ser “fascista”, “golpista” ou outros nomes que não cabem nesse espaço.

Seria interessante que a elite política brasileira lesse as duas parashiot e extraísse alguns ensinamentos sobre o que é liberdade verdadeira.

Author: Marcelo Costa

Marcelo Costa é membro da Congregação Judaica Shaarei Shalom.

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Marcelo Costa é membro da Congregação Judaica Shaarei Shalom.

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