Resposta à Lelê Teles

Em defesa, do povo judeu.

A resposta, ao senhor Lelê Teles, está no mesmo livro que o senhor tentou desqualificar; o mesmo livro que conta o início da história do povo judeu: a Torá. A resposta também se encontra na mesma tradição que utilizamos para aplicar essa mesma Torá no nosso cotidiano.

Fico sensibilizado quando vejo tamanho desconhecimento de nossa história, de nossos costumes. Isso é agravado pelo fato de sua esposa e sua filha, como você mesmo escreveu em sua retratação, realizarem alguns costumes judaicos. Pude inferir, inclusive, que elas devem ser judias. Por outro lado, devo admitir que eu poderia estar exigindo demais do senhor. Como poderia um militante engajado poderia entender como um país do tamanho de Estado de Sergipe, com escassos recursos naturais e com uma população minúscula se comparado aos seus vizinhos hostis poderia sobreviver e prosperar? Como o senhor poderia compreender as razões para que o povo numericamente inexpressivo consiga obter o maior número de Prêmios Nobel per capta em todo mundo? Na cabeça de fundamentalistas, que creem que a Lei é tão somente o Manifesto Comunista e que foi recebido por Marx diretamente das mãos do deus Socialismo, que determinou uma espécie de guerra santa contra os infiéis burgueses, é um fato de difícil aceitação.

Esquecem que o judaísmo e seu código moral foi a base do cristianismo e, em consequência, a base moral da Civilização Ocidental. Pessoas que intoxicaram a educação nacional com gramscismo não compreendem que há mais de três milênios a sociedade judaica alfabetiza em casa suas crianças. Não percebem que, há séculos, quando a regra mundial era ser analfabeto, os pais judeus levavam seus filhos de 13 anos para ler a Lei, interpretá-la e fazer um comentário sobre o seu entendimento do que foi lido perante toda a sua comunidade, em uma cerimônia belíssima chamada de Bar Mitsvah. Seguidores de uma ideologia que lutam pela padronização de pensamento em um processo que chamam de “a construção do novo homem” jamais entenderão como se estrutura uma página do Talmude por não compreender o valor do debate entre argumentações postas. Jamais entenderão o valor e o verdadeiro significado da frase “dois judeus, três opiniões e quatro sinagogas”.

Quanto ao texto que deu origem a essa confusão, como judeu ortodoxo, sou obrigado, no entanto a concordar parcialmente com uma afirmação do senhor. Qualquer povo é filho daquilo que o criou e do que o forjou. O povo judeu é mesmo, como o perdão do palavrão, um filho da puta.

Somos filhos de uma “puta” escravidão. A servidão no Egito e na Babilônia nos tornou amantes incondicionais da liberdade em todas as suas formas: liberdade de locomoção, de expressão e até mesmo de existir com seres livres. Por esse motivo, as campanhas abolicionistas globais do Sec XVIII foi iniciada com a participação ativa de judeus portugueses exilados que viviam na Inglaterra. E nesse aspecto destaco a participação da Sinagoga Sefaradi de Londres. Entenda, senhor Lelê Teles, como afrodescendente, que nós judeus amamos tanto a liberdade que não toleramos a escravidão. Perceba que, ainda que seus honrados antepassados não tenham recebido a liberdade da forma correta e merecida devido a uma grave falha no nosso processo histórico, eles devem essa bênção em parte a nós, judeus ibéricos que viviam na capitalista Inglaterra. Lembre-se também que foi esse mesmo espírito libertário que levou seu ídolo Marx (um judeu, ainda que não praticante) a se revoltar com as condições desumanas dos trabalhadores da Primeira Revolução Industrial, apesar de ele mesmo criar outras distorções que levariam a escravização desse mesmo proletariado no Leste Europeu e em outras partes do mundo.

Somos filhos de uma “puta” opressão. Ao longo dos séculos, fomos acusados de sermos isolados e de constituir judiarias ou ghettos para, como acusavam os nossos detratores, “ não nos sujarmos com os goyim”. Paradoxalmente esses mesmos detratores não raramente proibiam as mesmas comunidades judaicas de adquirirem terras e outros imóveis. Esse fato nos obrigou a viver em constante deslocamento. Essa mesma opressão nos atirou em atividades comerciais ou liberais que nos obrigou a sermos cosmopolitas com mais de dez séculos de antecipação e, em consequência, bem sucedidos profissionalmente. Ou seja, por uma questão de sobrevivência, fomos impulsionados por uma meritocracia forçada pelas circunstâncias.

Somos filhos de um “puta” genocídio. O Holocausto nos ensinou da pior forma que não adianta tentarmos nos apaziguar com os algozes ou renegar nossas origens, pois sempre haverá alguém que nos lembre da pior forma quem somos e qual é o nosso papel nesse mundo. Essa mesma barbárie nos deu a têmpera necessária para sobreviver e decidir que tal massacre não aconteceria novamente conosco e com nenhum outro povo.

Somos filhos de uma “puta” guerra. O fato de Israel estar cercado de inimigos e como poucos amigos dispostos a nos ajudar, obrigou-nos a desenvolver doutrina e tecnologia bélicas próprias. Após a incorporação dessas mesmas tecnologias na vida civil, promoveu-se o melhor IDH do Oriente Médio. Apesar de uma pequena minoria de judeus ultra-ortodoxos e de socialistas ateus pensarem de forma diferente, Israel prospera devido à união de todos os judeus (e acredite, até de muitos palestinos que a grande mídia classifica como “oprimidos”) a despeito da origem, da etnia, dos costumes, da condição social e até da religião de cada um. A guerra forjou um povo unido e pronto para suportar momentos extremamente difíceis. Sobrevivemos ao faraó, aos babilônios, aos gregos, aos romanos, à Inquisição, ao Califado Otomano, aos pogroms russos, ao Holocausto. Temos sobrevivido ao terrorismo. Acredite que não será um artigo mal redigido que nos destruirá.

Não exporei outros argumentos para não tornar o texto ainda mais longo. Espero mesmo que o senhor esteja arrependido. Pessoas erram e tem o direito de se arrepender e de corrigir sua conduta. Os mesmo judeus que, nesse momento desaprovam sua postura que espero que não seja antissemita, aprenderam com suas mães e na Torá o valor do arrependimento, que chamamos de Teshuvah. Busque exemplo dentro de sua própria residência.

O senhor fez questão de criticar o deputado Jean Wylys naquele desajeitado artigo por ele ter mudado de opinião em relação a Israel e aos judeus. Não concordo com as ideias do Deputado e nem nunca votei nele. Mas ele demonstrou reconhecer que errou seu julgamento, admitindo que seu preconceito advinha do desconhecimento. Sem nenhuma ironia pelo fato de ele ser militante LGBT, ele foi homem de verdade ao reconhecer seu erro de julgamento publicamente e até mesmo de se expor à críticas de seus companheiros de partido. Talvez o senhor devesse seguir o exemplo dele. Conheça antes de julgar. Não emita seu juízo pré-concebido, pois isso se chama pré-conceito.

Por fim, admita que escreveu uma bobagem preconceituosa de forma consciente e livre. Admita que errou sem buscar subterfúgios. Não por medo de eventual sanção judicial, mas por admitir que errou o juízo. Seria muito mais bonito. Sugiro ainda que o senhor pesquise sobre a nossa história e as nossas tradições em fontes honestas e isentas. Tenho certeza que o senhor mudará a sua opinião.

Atenciosamente

MARCELO COSTA – Judeu

Author: Marcelo Costa

Marcelo Costa é membro da Congregação Judaica Shaarei Shalom.

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Marcelo Costa

Marcelo Costa é membro da Congregação Judaica Shaarei Shalom.

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